Diálogos entre o Colonial e o Moderno
UniFECAF
Curso de Arquitetura e Urbanismo
Janeiro de 2026
Aluno: Kleber Vieira de Miranda Júnior
RA: 112695
Curso: Arquitetura e Urbanismo
Disciplina: Casa e Arquitetura Brasileira
Tutora: Marcela Granda
Trabalho apresentado como requisito avaliativo da disciplina
Janeiro de 2026
A casa brasileira é muito mais que um abrigo. Ela é um espelho da nossa história, carregando em cada janela, parede e pátio as marcas do encontro entre três povos: o português colonizador, o indígena nativo e o negro escravizado. Desde o período colonial até os dias atuais, a moradia brasileira evoluiu, mas nunca deixou de refletir as tensões, as heranças e as identidades que moldaram nossa sociedade.
Este trabalho busca compreender como a casa brasileira se expressa como identidade cultural, analisando o diálogo entre as formas coloniais tradicionais e a arquitetura moderna. Veremos que não se trata de uma simples evolução linear, mas de um processo complexo de permanências, resistências e transformações que ainda hoje moldam a forma como habitamos os espaços urbanos e rurais.
A casa colonial brasileira é fundamentalmente portuguesa em sua concepção. Com a chegada dos conquistadores ao litoral no século XVI, os valores estéticos e funcionais portugueses foram impostos no território, moldando a forma como se construía e se habitava. Essa imposição não foi neutra: era um instrumento de dominação cultural e política.
As primeiras casas eram construídas com taipa-de-pilão e pau-a-pique, materiais que aproveitavam a abundância de barro e madeira disponíveis no território. Essas técnicas construtivas, embora simples, eram eficientes e rápidas, permitindo a expansão rápida dos assentamentos coloniais.
Com o tempo, a evolução técnica levou à adoção de alvenaria de pedra e tijolos de adobe, permitindo estruturas maiores e mais duráveis. Os telhados de barro, as janelas com venezianas de madeira, os pátios internos protegidos do calor tropical: cada elemento era uma solução prática que respeitava o clima quente e úmido da colônia.
Taipa-de-pilão: Terra amassada dentro de formas e socada com pilões. Rápida e barata.
Pau-a-pique: Estrutura de madeira preenchida com barro e palha. Muito flexível.
Adobe: Tijolos de barro cru ou cozido em forno. Maior durabilidade.
Telhas de barro: Feitas localmente, com duas águas para escoamento de chuva.
Mas a casa colonial não era apenas funcional. Ela era profundamente hierárquica e refletia a estrutura social da colônia. Essa hierarquia aparecia em cada cômodo:
Igreja barroca mineira - Exemplo de arquitetura colonial de grande escala
Diversidade de janelas e portas coloniais com cores vibrantes
Influência portuguesa nos azulejos decorativos tradicionais
Essa organização espacial perpetuava a dominação portuguesa e, depois, a escravidão. As grandes casarões das cidades como Salvador, Ouro Preto e Olinda eram construídos pelas mãos de pessoas escravizadas, gerando lucros imensos para poucos colonizadores. A beleza arquitetônica colonial é, portanto, inseparável da violência que a produziu.
Casarões do Pelourinho: exemplo da "cidade alta" - beleza construída por escravizados
Com a Proclamação da Independência (1822) e, principalmente, com a Abolição da Escravidão (1888), o Brasil começou um processo de reimaginar sua identidade. Porém, as mudanças sociais e arquitetônicas foram mais lentas e contraditórias do que se esperava.
A arquitetura moderna chegou principalmente no século XX, trazendo novas tecnologias (concreto armado, vidro, aço) e novas ideologias sobre como se habitar. Arquitetos como Lúcio Costa e Oscar Niemeyer buscaram criar uma linguagem brasileira moderna, mas não rejeitavam completamente o passado.
Arquitetura moderna: linhas limpas, vidro e concreto armado como símbolos de ruptura
Essa reinterpretação aparecia de formas sutis:
Cobogó: Blocos vazados que permitem ventilação e iluminação natural. Evolução moderna dos elementos vazados coloniais.
Laje de transição: Plataforma aberta que media o interior e exterior, preservando a ideia do pátio.
Ventilação cruzada: Princípio colonial de manter casas frescas sem ar condicionado.
Mesmo assim, as contradições sociais não desapareceram. A divisão entre "cidade alta" (elites, bem servida) e "cidade baixa" (trabalhadores, precarizada) simplesmente se replicou em escala maior. O modernismo não aboliu a segregação espacial; apenas a atualizou:
A lógica colonial de separação e dominação do espaço urbano nunca foi realmente superada. Apenas mudou de forma.
Hoje, a casa brasileira é profundamente contraditória. Convivem nela resquícios de diferentes tempos sem síntese clara.
Nos condomínios de classe média alta, observa-se um retorno à estética colonial: telhas de barro, paredes brancas, pátios com espelhos d'água, varandas sombreadas. Essa apropriação é frequentemente nostalgia e consumo de "autenticidade" - um styling que ignora a violência produtiva daquele período.
A maioria das pessoas vive de forma muito diferente. Habita apartamentos funcionalistas de pequenos metragens, casas de alvenaria construída rapidamente, ou em favelas onde nem água encanada é garantida. A ausência de planejamento urbano em muitas áreas é a antítese da integração que o modernismo prometia.
A persistência de certos elementos revela algo profundo sobre a sociedade brasileira: ainda habitamos de forma hierarquizada. Ainda separamos "serviço" de "social", ainda concentramos infraestrutura em alguns pontos enquanto deixamos outros à margem. A casa contemporânea é filha dessa longa história de segregação.
Materiais:
Espaço Interno:
Relação com Exterior:
Função Social:
Técnicas Construtivas:
Apesar de séculos de evolução, certos padrões perseveram:
A casa brasileira não é uma coisa estática. Ela é um processo vivo, um diálogo permanente entre o que herdamos e o que queremos ser. Os séculos coloniais deixaram marcas profundas que vão muito além do estilo arquitetônico: criaram um imaginário sobre hierarquia espacial, sobre quem merece viver bem e quem merece viver à margem.
A modernidade trouxe mudanças reais e importantes - novas técnicas, novos materiais, novas possibilidades. Mas não apagou essas marcas. Pelo contrário: muitas vezes as atualizou, as replicou em novas escalas, as ocultou sob linguagem progressista enquanto a segregação continuava nos fatos.
Entender essa continuidade é fundamental para pensarmos em casas e cidades mais igualitárias, mais generosas, mais brasileiras de verdade. Arquitetura não é decoração. É política. É história. É o modo como escolhemos viver juntos.